O Pingo Doce e a luta de classes

Posted by on May 3, 2012 in Uncategorized | No Comments

OPINIAO | 3 MAIO, 2012 – 00:06 | POR LUÍS LEIRIA

A promoção dos supermercados do grupo Jerónimo Martins neste 1º de Maio foi uma provocação motivada por interesses de classe. Um dos maiores grupos capitalistas do país não se ralou nada de perder algum dinheiro (para eles não é perda, é investimento) para destruir uma conquista dos trabalhadores: o direito de não trabalharem, e de receberem o dia, no feriado do 1º de Maio, o dia internacional dos trabalhadores.

Para executar esse ato de agressão, usaram uma arma que não é nova: aproveitaram-se das dificuldades sofridas por setores da população para virá-los contra os direitos dos seus próprios funcionários e contra aqueles que os defendiam, nomeadamente os sindicatos e os cidadãos que tinham apelado ao boicote às compras nesse dia.

A manobra tem a marca dos métodos de classe patronal e é usada desde os primórdios do capitalismo selvagem. Nos tempos em que o direito de greve não estava minimamente regulamentado, os patrões recrutavam batalhões de fura-greves entre os desempregados. Desesperados, sem meios de subsistência, estes trabalhadores muitas vezes prestavam-se à quebra de solidariedade com os grevistas, em troca de uns trocos pagos por aquele dia de trabalho a furar a greve. Os grevistas desprezavam-nos; mas a melhor resolução deste dilema, a longo prazo, foi regulamentar a lei da greve e proibir os fura-greves. A proibição dos fura-greves é uma conquista dos trabalhadores, conseguida à custa de muitos piquetes de greve, de muitos confrontos com a polícia e os seguranças patronais, de muitas recolhas de fundo de greve. Os capitalistas acabaram por ser forçados a engolir o direito de greve, mas não perderão nunca uma oportunidade desafiá-lo e de pô-lo em causa. A isto, por muito que haja quem considere este termo ultrapassado, chama-se luta de classes.

A promoção do Pingo Doce seguiu exatamente o mesmo método: quis garantir que todos os seus funcionários iam trabalhar no feriado; ao mesmo tempo, derrotar todos os que tinham apelado ao boicote às compras nas suas lojas naquele dia. Para isso, aproveitou-se das dificuldades que atravessam largas camadas da população trabalhadora, e até de pequenos empresários, que invadiram as suas lojas para comprar, comprar, comprar. Um desconto de 50% não é desprezível para quem tem um orçamento apertado; não é desprezível para ninguém.

O sr. Alexandre Soares dos Santos deu uma boa demonstração de consciência de classe – da sua classe, a dos capitalistas. Mostrou que esta classe está perfeitamente sintonizada com o governo (onde está a proibição do evidente dumping?). E que capitalistas e governo estão empenhados em destruir todas os direitos conquistados, na sua maioria, com o 25 de Abril. Sejam eles o direito a gozar os feriados, a ter subsídio de desemprego, a ter contratos trabalho, e um longo etc..

Alguns comentadores maravilham-se com a “brilhante jogada de marketing”. Seria risível, se não fosse triste. Foi de tal maneira evidente a manobra dos donos do Pingo Doce, que chega a ser confrangedor ouvir estas “opiniões” e outros dislates sobre a “sociedade de consumo”. Quem foi ao Pingo Doce neste 1º de Maio não comprou Ipads, telemóveis, plasmas, Mercedes, até porque não estavam à venda. Comprou comida.

Quanto ao resultado do marketing, desconfio que foi negativo. Mas estes senhores não se preocupam muito com isso. O marketing da sua fuga aos impostos para a Holanda também foi negativo. Mas sempre haverá a Fundação Francisco Manuel dos Santos para explicar “cientificamente” que o grupo que a financia é muito correto, dinâmico e moderno – e que está ao serviço de uma sociedade de “concertação”, onde “não há lugar para luta de classes” – esse termo “fora de moda”. Pois.

Na Islândia, a retoma ainda não apagou a raiva

Posted by on Apr 28, 2012 in Uncategorized | No Comments

lerem: http://www.ionline.pt/dinheiro/na-islandia-retoma-ainda-nao-apagou-raiva

O livro que os islandeses mais leram desde 2010, que está em todas as casas ao lado das sagas nórdicas e do Nobel Halldor Laxness, é um relatório de auditoria. Nele está narrado o fio de acontecimentos que levou um país isolado, com menos pessoas do que o distrito de Viseu e dependente de negócios como a pesca, a fabricar a maior bolha bancária da História. Os islandeses leram com a avidez que faz deles os maiores leitores de literatura e jornais em todo o mundo. Em Reiquiavique, a capital, com pouco mais de 200 mil pessoas, encontrei pelo menos três livrarias de topo. O principal jornal diário, o “Morgunbladid”, tira em média 40 mil cópias – um jornal comparável em Portugal precisaria de tirar 1,4 milhões de exemplares (quase quatro vezes a tiragem diária conjunta de todos os diários generalistas portugueses) para ter o mesmo nível de vendas.

O resultado da auditoria pública à gestão bancária e à conduta política foi publicado em oito volumes, incluindo um com o resumo das conclusões, em linguagem para leigos. Foi colocado nas livrarias com o preço simbólico de 100 coroas (60 cêntimos). “É como ler ficção, tem uma grande trama”, diz sem qualquer ironia Gudrun Ingvarsdóttir, uma arquitecta de 39 anos. O impacto da auditoria na opinião pública, combinado com o da crise, foi devastador. Nos livros está a concentração de interesses entre os banqueiros que arruinaram o país e o poder político, a gestão criminosa do risco, a dimensão da loucura de uma era em que bilionários instantâneos pagavam milhões a Elton John para cantar em festas. “Depois de lermos começámos a perguntar como é possível dizer que a Islândia é um país bem classificado nos rankings de corrupção – nós vivemos no país mais corrupto da Europa”, acusa Gudrun.

Passados três anos e meio do colapso da bolha financeira, a Islândia parece ser um caso de sucesso e um motivo de inspiração para a Europa em crise. Depois do afundamento de 10% entre 2008 e 2010, a economia cresceu 2,5% em 2011 e deverá expandir outro tanto este ano, puxada pelo turismo e pelas exportações. A agência de notação financeira Fitch tirou a dívida pública islandesa do nível “lixo” – onde está a portuguesa – e o país, que já voltou aos mercados de dívida, anunciou em Março o pagamento adiantado de 340 milhões de euros ao FMI. A taxa de desemprego caiu para 7%, menos de metade da registada em Portugal. O programa do FMI acabou em Agosto de 2011 e os técnicos falam em tom cândido das “lições” que aprenderam na Islândia. O governo escolheu um rumo pouco ortodoxo. Ao contrário do que fizeram os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido ou da Irlanda, a Islândia deixou cair os bancos e os credores externos.

Quem chega a Reiquiavique no gelado mês de Fevereiro vê escassos sinais do histórico “kreppa”, como os islandeses chamam ao colapso de 2008. Não fossem as omnipresentes t-shirts à venda com o slogan “We don’t have cash, but we have ash” – numa referência à cinza vulcânica que em 2010 paralisou o tráfego aéreo na Europa – e não haveria qualquer sinal da crise à superfície. Os cafés, restaurantes e bares da moda situados na Avenida Laugavegur estão recheados de nativos e de turistas atraídos pela desvalorização de 50% da coroa. Não há pessoas a pedir na rua. No porto brilha o gigante Harpa, a versão islandesa da Casa da Música, símbolo das extravagâncias do passado terminado com dinheiro público, já com meio milhão de visitantes desde a inauguração em Maio de 2011.

Mas, sob a superfície, há uma grande dose de ressentimento e de desconfiança na sociedade islandesa. “Percebo que no contexto europeu queiram tornar este país um símbolo de esperança na democracia, mas garanto que não é o que sentem as pessoas que vivem aqui” desabafa Anna Sorensen, que edita a revista em inglês “The Grapevine”. Uma sondagem recente, publicada pela Reuters, parece confirmar o sentimento: apesar da recuperação económica, o parlamento merece o voto de confiança de apenas 10% dos inquiridos. Em Reiquiavique, só os banqueiros têm pior reputação que os políticos.

O julgamento do ex-primeiro-ministro, Geir Haarde, é visto pelo governo actual como um primeiro passo necessário para a reconciliação. A Islândia foi o único país a julgar um responsável político por negligência na crise financeira. A sentença, conhecida esta semana, foi interpretada por analistas citados na imprensa internacional como uma solução de apaziguamento: Haarde, 61 anos, foi absolvido das acusações mais graves (que dariam um máximo de dois anos de prisão), mas condenado por não ter dedicado mais atenção aos sinais óbvios nos meses anteriores à crise. A justiça tem mais acusações formalizadas contra alguns banqueiros.

O PODER DA MOEDA Mesmo que os processos tenham alguma influência a prazo, a chave para a reconciliação está na melhoria das condições económicas. Mas não está o país a crescer pelo segundo ano consecutivo? O que se passa sob a superfície sofisticada de Reiquiavique? “O que está a ferver sob a superfície é a dificuldade das famílias, que estão sobrecarregadas com os empréstimos para habitação e com a redução entre 20% a 30% no poder de compra”, responde Karl Blondal, editor do “Morgunbladid”.

O “fim da crise” a um nível mais institucional não significa o fim da crise para as pessoas. A desvalorização de 50% da coroa que ajuda as exportações (e está a motivar uma onda de novos negócios – ver segundo texto) é a mesma que, numa ilha que importa muito do que consome, faz disparar a inflação para mais de 20% logo em 2009. A taxa tem caído, num sinal de progresso, mas continua relativamente alta (6,5%), tendo em conta o valor já acumulado. A erosão do poder de compra já seria problema suficiente, mas há um impacto adicional e devastador: 75% dos empréstimos para compra de casa estão indexados à taxa de inflação e os restantes 25% ligados a cabazes de moedas estrangeiras. No primeiro caso, a prestação da casa inchou muito; no segundo, explodiu para o dobro ou o triplo.

A arquitecta Gudrun, 39 anos, casada e com dois filhos, dá o seu exemplo. Em Dezembro de 2005 comprou com o marido uma casa de dois quartos por 30 milhões de coroas (400 mil euros na altura e 180 mil euros ao valor actual da coroa). Gudrun, sócia de um gabinete de arquitectura, e o marido, consultor de negócios, eram candidatos modelo para um empréstimo. Conseguiram poupar e deram 40% do valor da casa como entrada (os bancos emprestavam mais de 100% do valor da casa), pedindo os restantes 18 milhões de coroas a uma taxa de 4,5% indexada à inflação. Mas com o salto súbito na inflação, a prestação de 97 mil coroas (583 euros) cresceu 40% para 137 mil por mês (822 euros) – e os 18 milhões do empréstimo passaram, de repente, a ser cerca de 26 milhões, comendo praticamente todo o capital investido.

No dia em que me encontrei com Gudrun – que saiu do ateliê dos grandes projectos da bolha e trabalha agora numa empresa que constrói e arrenda casas a baixo custo –, a notícia dominante era a decisão do Supremo Tribunal que ordenara a revisão em baixa dos juros nos contratos mais arriscados, feitos em moeda estrangeira. “É uma má lição que as autoridades dão, porque recompensam os que mais arriscaram à custa dos mais prudentes”, acusa Gudrun. Thórolfur Matthíasson, professor na Faculdade de Economia da Universidade da Islândia, percebe o problema, mas considera-o inevitável. “Há uma coisa que não se pode esperar numa crise financeira: justiça transversal.” Os mais prudentes pagam sempre a conta.

Matthíasson assistiu a comissão parlamentar de supervisão dos programas de redução da dívida das famílias, elogiados há duas semanas pelo FMI, que recomendou o mesmo rumo a países com dívida privada muito alta e resultante de bolhas de crédito imobiliário (um recado indirecto para Espanha com eco em Portugal). As autoridades começaram por um perdão parcial às pessoas com dívida 110% maior do que o valor da casa, explica. Depois avançaram para moratórias e perdões parciais para quem tinha um empréstimo igual ao valor da casa (obrigando, em contrapartida, as pessoas a venderem todos os activos, excepto a casa e um carro). Ao todo, o Estado já concedeu perdões de dívida e moratórias no valor de 20% do PIB (cerca de 2 mil milhões de euros). “O problema é que as pessoas esperavam muito mais perdões”, lamenta Matthíasson. A dívida de particulares ainda supera em 200% o rendimento disponível (130% em Portugal) e um terço das famílias está em dificuldades para cumprir as prestações.

O ressentimento poderá aumentar à medida que as pessoas se forem apercebendo de uma realidade mais ou menos oculta: apesar de os islandeses terem decidido por duas vezes em referendo não pagar o fundo de garantia de depósitos aos credores estrangeiros, o país acabará por pagar. “Na realidade, nós já estamos a caminho de pagar cerca de 30%”, explica o professor universitário. E as pessoas não sabem disso? “Sim e não”, responde. “O descontentamento era grande. Depois dos referendos, o governo fez passar a ideia de que nunca pagaríamos e o pagamento é uma operação financeira gradual e difícil de seguir.”

Os governos da Holanda e do Reino Unido pagaram o fundo de garantia aos seus cidadãos que abriram contas online no Landsbanki islandês, transformando uma dívida privada de 4 mil milhões de euros em dívida entre países. A expectativa do governo da Islândia é de que a liquidação dos activos do nacionalizado Landsbanki sirva para resolver a dívida. Mas o país enfrenta um risco adicional: o tribunal da EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) abriu um processo à Islândia por discriminação entre depositantes nacionais (que receberam o fundo) e estrangeiros. A União Europeia juntou-se à acusação há duas semanas. Uma condenação poderia levar os governos britânico e holandês a pedirem nos tribunais da Islândia o pagamento de juros e de uma penalização adicional, que pode ir até 10%.

“A decisão dos referendos [que rejeitaram duas propostas de negociação] foram um risco, uma aposta de que ainda não sabemos o resultado”, assume o ministro do Estado Social, Gudbjartur Hannesson. Pelo menos, a Islândia teve a coragem de deixar cair os bancos criminosamente geridos, juntamente com os credores, certo? “Nós não escolhemos, foi uma questão de força maior”, responde o ministro. “Os bancos cresceram até serem dez vezes maiores do que a nossa pequena economia – era impossível resgatá-los”, explica. O “too big to fail” anglo-saxónico, o lema atrás da salvação dos bancos pelos estados dos EUA e Irlanda, deu lugar na Islândia ao “too big to save”.

“Tem de ver de onde vimos.” A trama da saída milagrosa e original da crise ia ficando cada vez mais densa a cada conversa – e mais dissonante da realidade observável. O ministro que concentra saúde, segurança social e a gestão dos programas de redução de dívida – “tudo vem aqui dar, veio ao lugar certo” – era o candidato ideal para perguntar o que explica este fosso. Como é que há tantas queixas e as coisas parecem tão boas? “Tem de olhar para de onde vimos: um estado social nórdico”, responde Gudbjartur. “O nosso ponto de partida antes da crise era bom e o governo focou-se na defesa da rede social, o que foi mais fácil por sermos uma nação pequena”, acrescenta.

O governo – uma aliança exótica entre sociais-democratas e esquerda dura – foi forçado a fazer cortes nos gastos sociais. A opção foi cortar 5% em saúde e 7% em educação, mas estes cortes vieram em cima da dieta imediatamente a seguir à crise – ao todo, para ajudar a acomodar a subida grande com juros da dívida pública, a Islândia eliminou 17% em gastos de saúde (Portugal comprometeu-se a cortar 1000 milhões de euros das despesas de saúde, cerca de 13% do total). Mas mesmo no meio da sangria, o governo conseguiu negociar com o FMI a expansão do subsídio de desemprego de três para quatro anos e o aumento dos apoios sociais para os grupos mais fragilizados. Para compensar, aumentou os impostos para a classe média, os mais ricos, as empresas e os bancos. A taxa de pobreza manteve-se das mais baixas da Europa. E para a classe média, apertada em várias frentes, os fundos de poupanças para a reforma estão a funcionar como almofada de emergência. “São um pé-de-meia facultativo para a reforma, para o qual contribuem o trabalhador e o empregador, que as pessoas estão agora a queimar”, realça o jornalista Karl Blondal.

Os islandeses estão a pagar um preço alto – não há ajustamentos fáceis –, mas a sociedade é mais igualitária e rica do que, por exemplo, a portuguesa. O nível salarial médio para trabalhadores não qualificados é de 1500 euros e o subsídio de desemprego mínimo começa em 1100 euros. “Um país com 300 mil pessoas que pesca 5% do peixe consumido no mundo e está sentado em cima de uma central de energia geotérmica nunca pode estar verdadeiramente mal”, ironiza Andri Snaer Magnasson, escritor e argumentista. “Pelo menos agora, a riqueza que criamos é mais verdadeira”, acrescenta. Os islandeses já se aperceberam disto. Mas levará tempo até que a retoma alivie as marcas deixadas pela crise – marcas no bolso, na confiança e na coesão social.

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