Pequeno tratado do decrescimento sereno

http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=12985

Neste Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno o autor expõe seu projecto de uma sociedade do decrescimento e descreve como se deveria realizar essa transição nas sociedades consumistas, evitando, deste modo, uma catástrofe ecológica e humana, pois os recursos do planeta não são inesgotáveis. Para Serge Latouche, o decrescimento é uma ‘utopia concreta’: não podemos continuar a perseguir infinitamente o crescimento, a economia e o progresso económico, quando o nosso planeta se encontra em declínio – é preciso um modelo alternativo, uma filosofia e um modo de vida gradual e serenamente decrescente.

 

……………….

http://movimento.vidasalternativas.eu/index.php/temas-beja-santos/679-decrescimento-sereno-um-conceito-altamente-polemico.html

Beja Santos

Serge Latouche é o grande paladino do modelo de decrescimento sereno e sustentável. As suas teses acabam de aparecer entre nós e seguramente que vão alimentar discussões sobretudo nos meios ligados à ecologia, aos modelos económicos alternativos e à alterglobalização: “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”, por Serge Latouche, Edições 70, 2011. Outrora, falava-se em reduzir, reutilizar e reciclar. Na sua proposta para o decrescimento sereno convivial e sustentável, Latouche propõe: reavaliar, reconceptualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. Vivemos no mundo em que os danos ambientais estão largamente denunciados mas como temos a nossa refeição garantida todos os dias, tudo pretendemos ignorar. Há décadas que se fala nos riscos a prazo de um conjunto de substâncias como os pesticidas, muito pouco se fez; quase todos os dias emanam relatórios perturbadores de entidades respeitáveis, continuamos vergados ao crescimento pelo crescimento, parece que há uma incapacidade generalizada para pôr um travão a este bólide sem condutor, sem marcha atrás e sem travões.

Fazendo fé à argumentação de Latouche, vamos passar em revista os dados fundamentais deste projecto de sociedade de decrescimento que o autor apresenta como a única alternativa que se pode pôr a uma previsível catástrofe ecológica e humana. Primeiro, a despeito de muita indiferença dos meios políticos dominantes, há uma gradual atenção ao decrescimento que já aparece associado à rejeição do crescimento ilimitado o tal que se pauta pelo culto irracional e quase idólatra do crescimento pelo crescimento. Retomando enunciados e olhares que vêm da contestação ambiental e de muitos intelectuais alternativos, o projecto de decrescimento orienta-se para uma sociedade em que se viverá melhor, trabalhando e consumindo menos. O conceito de desenvolvimento sustentável fundamenta-se em ambiguidades e equívocos, tudo leva a crer que os economistas que no fundo suspiram só pelo crescimento pelo crescimento até gostem do conceito, tão neutro que ele é. A economia neoclássica condescende com a necessidade de apregoar a sustentabilidade mas no fundo mantém-se indiferente às leis fundamentais da biologia, da química e da física. Esses economistas negam a bioeconomia ou seja rejeitam pensar a economia no interior da bioesfera. Segundo, a sociedade em que vivemos é a da acumulação ilimitada, nela o importante é criar desejos ao consumidor, dar-lhe crédito para ele nunca deixar de consumir e programar os produtos para que se renove regularmente a necessidade de sua substituição. Chegámos assim a uma pegada ecológica insustentável, vivemos do rendimento e do património. Os excessos cometidos têm sido tão grandes que não há ninguém que não se interrogue se não estamos a preparar o nosso desaparecimento: uma guerra atómica, através de pandemias, esgotando os recursos naturais e destruindo a biodiversidade, mediante alterações climáticas que tornem a existência inviável.

As discussões sobre o modelo económico alternativo prosseguem, mas parece que ninguém quer pôr em causa a lógica de desmesura do sistema económico. Terceiro, para entender o decrescimento é necessário compreender o ciclo dos oito “R” que Latouche preconiza: reavaliar (os valores do passado são incompatíveis com os desafios do presente, precisamos de cooperação, vida social, autonomia como os valores indispensáveis para substituir a competição desenfreada, o consumo ilimitado e a eficiência produtivista); reconceptualizar (porque esta mudança de valores pressupõe uma outra maneira de apreender a realidade); reestruturar (ou seja, adaptar o aparelho de produção a essa mudança de valores o que significa que se terá de pôr em causa e muito provavelmente abandonar o capitalismo); redistribuir (a reestruturação das relações sociais acarretará uma distribuição); relocalizar (produzir localmente uma parte fundamental do que é indispensável para satisfazer necessidades da população); reduzir (para diminuir o impacto na bioesfera das nossas maneiras de produzir e consumir); reutilizar/reciclar (aqui parece estar toda a gente de acordo, é um conceito pacífico). Destes oito “R” três têm um papel estratégico, como escreve Latouche: a reavaliação, porque ela preside a toda a mudança, a redução porque condensa todos os imperativos práticos do decrescimento e a relocalização porque diz respeito à vida quotidiana e ao emprego de milhões de pessoas. Relocalizar será inventar a democracia ecológica local com as suas relações transversais, virtuosas e solidárias, com um elevado grau de auto-suficiência alimentar, mas também económica e financeira.

O que nos remete para um valor profundo da regionalização, ela própria com uma decrescente pegada ecológica graças à produção e ao consumo sustentáveis e uma elevada riqueza em iniciativas locais decrescentes. Quarto, reduzir será contrariar a irracionalidade da globalização, onde camarões dinamarqueses são descascados em Marrocos e regressam à Dinamarca, lagostins escoceses são expatriados para a Tailândia para ser descascados à mão e regressar à escócia para ser cozidos. Esta globalização irracional assenta no uso indiscriminado transporte e na indiferença pela velocidade. Este decrescimento, como é óbvio, carece de um programa político, não pode ser implementado sem uma grande adesão das populações: para reduzir a pegada ecológica; para se aplicar ecotaxas; para se fixarem actividades económicas e pessoas em meio local, para encorajar uma produção o mais local, sazonal, natural e tradicional que for possível; para transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e em criação de empregos; para reduzir os desperdícios de energia; e para impulsionar os chamados bens relacionais, como a amizade e o conhecimento. Estamos pois no centro das grandes controvérsias: nesta acepção do decrescimento o que seria o pleno emprego, que modelo capitalista se poderia institucionalizar, isto logo à cabeça. Está aberta a grande discussão.

Em jeito de conclusão, é bom que se diga que os partidários do crescimento são rotulados de todas as enormidades: são contra o progresso, contra o turismo de massas, a inovação e competitividade, por exemplo. Latouche responde que a realização de uma sociedade de crescimento passa necessariamente por um reencantamento do mundo, o que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. Querer travar a banalização das coisas requer artistas e entusiastas pelo decrescimento. Resta saber qual a adesão que este modelo alternativo encontrará, qual o entusiasmo a este modo de vida gradual e serenamente decrescente. As grandes discussões vão agora começar.

 

……………..

http://scopos.blogspot.pt/2012/01/pequeno-tratado-do-decrescimento-sereno.html

Crescer ilimitadamente num meio limitado resulta numa equação impossível. Isto é fácil de entender, qualquer criança percebe. O facto, porém, não impede de ser esta a filosofia base do modelo económico pelo qual, desgraçadamente, somos governados. E digo bem, governados, porque de forma igualmente infeliz, é a economia e os seus atores principais quem nos (des)governa. A democracia, tão apreciada, tão embandeirada e tão usada como arma de arremesso pelo Ocidente-dos-bons-princípios, não tem passado de um holograma que nos colocam à frente dos olhos, uma elaborada imagem tridimensional a que falta verdadeira substância contida no étimo que a designa: o poder do povo. No fundo, o modelo do crescimento ilimitado não difere substancialmente daqueles sistemas «em pirâmide» muito frequentes há 10 ou 20 anos atrás, que promoviam a concentração de riqueza em direcção ao topo, à custa de quem estava na base, aliciado pelo «sucesso» dos que tinham apanhado primeiro o combóio. De facto, quem não se questionou acerca da facilidade com que, a partir de certa época, se adquiriam bens que, uma geração antes, eram impensáveis para o comum dos mortais? Automóveis, computadores, material electrónico (cuidadosamente programado para durar pouco ou parecer obsoleto ao fim de meses), roupa, calçado, até casas. E sustentando tudo isto, os moradores das traseiras do mundo, trabalhando arduamente por uma taça de arroz. Tudo em nome da máxima «rentabilidade» e do máximo lucro (que, convém sublinhar, vai parar sempre aos mesmos bolsos).

Crescer: aumentar a produção, aumentar a população, aumentar o lixo. E a Terra continua a mesma, com os seus 40 000 km de perímetro…

É muito fácil constatar que qualquer modelo de permanência sustentada no nosso habitat terá de basear-se na manutenção dos recursos, num esquema produtivo que promova a justa distribuição de riqueza, e na reordenação dos valores fundamentais que orientem a prática.

Neste pequeno livro de Serge Latouche, estão resumidas, argumentadas e relacionadas as ideias que constituem esta filosofia do decrescimento, que na realidade é a do a-crescimento.

No cerne do ciclo virtuoso do decrescimento estão os 8R: Reavaliar; Reconceptualizar; Reestruturar; Redistribuir; Relocalizar; Reduzir; Reutilizar e Reciclar. Os três últimos são já conhecidos. Gostava de salientar dois:

Reavaliar: «… de imediato reconhecemos os valores a que se deve dar prioridade(…): o altruísmo, a cooperação, o prazer do lazer e o ethos do jogo, a importância da vida social, o local, a autonomia, o gosto pela obra bela, o razoável e o relacional deveriam substituir, respectivamente, o egoísmo, a competição desenfreada, a obsessão pelo trabalho, o consumo ilimitado, o global, a heteronomia, a eficiência produtivista, o racional e o material» (pp 51);

Relocalizar: «… qualquer produção que se puder fazer à escala local e para as necessidades locais, deveria portanto ser realizada localmente» (pp56). De facto é preciso parar com este absurdo de fabricar peças na Dinamarca, que depois vão para a Tailândia ser montadas e regressam à Dinamarca para embalagem!

Serge Latouche detém e manuseia com a naturalidade de quem não pretende ludibriar um impressionante acervo de informação, devidamente referenciada. Não se detém nos velhos caminhos ideológicos, mantém uma higiénica e muito bem vinda equidistância aos clássicos alinhamentos políticos.

E por último, não menos importante, este tratado, escrito por 2007, brilha como um farol, neste nevoeiro de 2012.