O presente artigo aborda a Permacultura como uma estratégia alternativa para a organização de espaços mais sustentáveis. O trabalho considerou as suas origens históricas, suas principais concepções teóricas e metodológicas. A idéia foi desenvolvida na década de 70, do século XX, pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren e difundida em vários países, inclusive no Brasil. Inicialmente, o termo significava uma agricultura permanente, atualmente é definido como assentamentos humanos sustentáveis. A permacultura é um sistema holístico de planejamento onde todos os aspectos para a manutenção e equilíbrio da natureza e da vida humana são considerados. Os pilares do método permacultural são um conjunto de princípios éticos e de desing, e a junção de conhecimentos tradicionais com a ciência moderna. A abordagem se fundamenta na urgência de se criar soluções mais sustentáveis como estratégia para a resolução dos problemas oriundos da crise ambiental, garantindo assim, a qualidade de vida das futuras gerações e o equilíbrio dos ecossistemas. Palavras-Chave: Permacultura, planejamento, holístico, sustentabilidade

1  INTRODUÇÃO

Na contemporaneidade, as bases dos modelos de produção não se mostram eficazes para a melhoria da qualidade de vida das populações, ao contrário, aumentam ainda mais os índices de pobreza e miséria, a excessiva produção de resíduos sólidos, a insegurança alimentar, os transtornos mentais, entre outros.

Esse modelo tem por característica a intensa exploração dos recursos naturais, a homogeneização das sociedades e a obsolescência planejada¹para a obtenção de lucros como finalidade suprema.

Entretanto, desde a década de 60 do século XX, diversos grupos da sociedade civil vêm se conscientizando, exponencialmente, acerca da importância da conservação dos recursos naturais e da biodiversidade para a sobrevivência dos seres humanos no planeta.

Uma dessas correntes é a Permacultura que surgiu, na década de 1970, para tentar responder às questões advindas dos processos de globalização, em especial à crise ambiental, através de um método holístico de planejamento que trata de diversos aspectos da vida humana que são fundamentais para a sustentabilidade.

A proposta deste trabalho foi desenvolvida a partir da experiência da autora com a Permacultura em 2009, através da 3º vivencia em Ecologia Urbana (Permacultura no seu dia- a- dia) realizada pelo Instituto Ecovida São Miguel na cidade de Belo Horizonte/MG.

Esse artigo tem por objetivo geral apresentar, através da Permacultura, um modelo alternativo, sistêmico e orgânico de construção de um espaço geográfico mais sustentável.

Especificamente, pretende se demonstrar o histórico, as principais concepções teóricas e metodológicas da Permacultura.

Os procedimentos metodológicos utilizados foram o levantamento das principais conferências e acordos realizados mundialmente, a partir da década de 1960, que reconheceram a urgência de se estabelecer medidas para controlar as dimensões da crise ambiental e a apresentação das principais concepções da Permacultura: Histórico, bases fundamentadoras do conceito e os métodos de planejamento.

Em virtude da natureza do trabalho, não é a finalidade do mesmo elencar todas as possíveis práticas permaculturais e nem analisar profundamente as questões referentes à crise ambiental, mas sim, demonstrar os principais pontos da problemática para que sirva de apoio e referência para futuras pesquisas no âmbito das ciências ambientais, em especial a geografia.

- A CRISE SOCIOAMBIENTAL

A partir das décadas de 1960 e 1970, os sinais de uma crise socioambiental começam a se evidenciar em reflexo a irracionalidade dos padrões dominantes de produção e consumo que são justificados em razão do crescimento econômico. (LEFF, 2001).

A expansão da consciência social sobre os problemas ambientais e, politicamente, a criação de agências governamentais voltadas para o meio ambiente; a multiplicação de organizações não governamentais ambientalistas e a influência das forças ambientalistas sobre as políticas públicas e legislação ambiental, representaram um significativo avanço na promoção da causa ambiental

Em 1972, em Estocolmo, na Suécia, é realizada a conferencia das Nações Unidas sobre o ambiente humano onde se reuniram chefes de Estado para discutir as relações entre e conservação ambiental e desenvolvimento industrial, surgindo assim, às idéias de “poluição da pobreza e ecodesenvolvimento”. (TEIXEIRA, 2000, p. 522).

Os debates basearam se na questão do controle populacional e da necessidade de redução do crescimento econômico gerando contestações por parte dos países em desenvolvimento que entendiam a proposta como um movimento de ampliação da subordinação internacional dos países subdesenvolvidos aos países desenvolvidos.

Os países em desenvolvimento se posicionaram em contraposição da postura neomalthusiana, alegando o direito ao crescimento por todos os países.

Tendo o Brasil como principal líder, esses países resistiam ao reconhecimento da importância da problemática ambiental considerando a miséria a principal fonte de poluição. O principal argumento se baseava na pobreza como principal causa dos problemas ambientais, em especial a poluição, e que somente com o crescimento econômico esses problemas seriam solucionados.

Isso significou a reprodução, por parte dos países “menos desenvolvidos”, dos paradigmas associados à qualidade de vida baseada no consumo, desperdícios, injustiças sociais e degradação ambiental dos países “desenvolvidos”.

Na década de 80 o conceito de desenvolvimento foi reformulado e a ONU (Organização das Nações Unidas) organizou uma comissão que apresentou o Relatório Brundtland, no qual foi introduzido o conceito de desenvolvimento sustentável que tem por base o desenvolvimento econômico com equidade social e equilíbrio ambiental.

Entretanto, os países não estabeleceram em suas políticas públicas, diretrizes fundamentadas no equilíbrio ambiental e social propostos pelo Relatório Brundtland, que segundo BOFF (2004, pg.104), é contraditório, pois, “por mais que se acrescentem epítetos a este desenvolvimento, auto sustentado e autógeno, ele nunca deixa sua matriz econômica de aumento da produtividade, acumulação e inovação tecnológica”. Nessa mesma perspectiva Rodrigues expõe:

O esgotamento de recursos está se dando exatamente porque em alguns lugares o modelo de produção, que parece infinito, deu “certo”. Desse modo, o desenvolvimento e a sustentabilidade são aspectos contraditórios do processo. Onde deu mais certo a produção de mais e mais mercadorias é onde mais se destruiu a natureza. (Rodrigues et al. 1998 apud Lima 2002).

Mais tarde, em 1992, foi realizada no Rio de Janeiro, a segunda Conferencia das Nações Unidas sobre Meio Ambiente que ficou conhecida como Eco-92.

Dessa conferência, que reuniu mais de 118 governantes e mais de 15 mil organizações não governamentais, resultou a assinatura da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), da Declaração de Princípios das Florestas, da Convenção  Quadro sobre Mudanças Climáticas e da Agenda 21.

A Agenda 21 é um documento que trata dos mais variados temas como saneamento, demografia, saúde, lixo, poluição, transportes e energia. Contem quatro seções, 40 capítulos e mais de cem programas, por meio dos quais os governos signatários pretenderam estabelecer um plano de ação para o desenvolvimento sustentável global no século XXI. “É um dos mais extensos e formais reconhecimentos dos direitos socioambientais já registrados pelo Direito Internacional” (BATISTA, 2007, p.476).

Esse documento também recomenda que todos os países elaborem a sua Agenda 21.

No Brasil, a construção do documento começou em 1997 e terminou em 2002, sendo o Ministério do Meio Ambiente (MMA) o órgão competente pela elaboração.

A Agenda 21 brasileira é composta por dois documentos. O primeiro intitulado “Resultado de Consulta Nacional” e o segundo de ” Ações Prioritárias”, que contem uma plataforma com 21 ações que são indispensáveis para dar conta do desafio da sustentabilidade no pais.

Entre essas ações, estão enumeradas a promoção da agricultura sustentável, a preservação e melhoria da qualidade da água, a universalização do saneamento ambiental, o combate à cultura do desperdício e a participação democrática, que são algumas das proposições do tema desse trabalho.

- ORIGENS DA PERMACULTURA

A Permacultura foi desenvolvida na década de 1970, na ilha da Tasmânia, na Oceania, pelo Biogeógrafo Bill Mollison² e pelo seu aluno universitário David Holmgren.

A idéia foi desenvolvida em resposta a diminuição da fauna e da flora no interior da Austrália em virtude do sistema industrial e agrícola convencional que, naquela época, já se mostravam degradantes e insustentáveis. Através da observação e de intensas pesquisas, os precursores criaram um método para reprodução de florestas naturais altamente produtivas e estáveis.

No ano de 1978, Holmgren deixou a universidade e foi se dedicar exclusivamente à melhoria do método e propagar o conceito e seus princípios no mundo inteiro (ROMERO, 2002).

___________________________________________________________________________ ² Bill Mollison é o fundador e diretor do Permaculture Institute, o primeiro e mais antigo instituto de Permacultura. (IPEC, 2009).

Em 1981 Mollison começa a ensinar Permacultura como uma disciplina de design aplicado.

De acordo com o site Sete Lombas (2009), o PDC, “Permaculture Design Certificate” é um curso que trata dos princípios e da metodologia de design da permacultura. Segue um programa padrão criado por Bill Mollison para garantir a qualidade permanente da formação dos permacultores em todo o mundo.

O termo Permacultura foi introduzido em 1978, por Bill Mollison, através da publicação do seu primeiro livro Permaculture One. Entretanto as bases do seu método foram consolidadas no seu segundo trabalho, intitulado Permaculture Two (MIRALLES, ROMERO, 2001, p. 4). Inicialmente, a palavra representava a junção das palavras agricultura e permanente, porém, a necessidade de se planejar outros aspectos da vida humana, como habitação, uso da água, economia, eficiência energética e relações sociais, a palavra passou a ser entendida como uma Cultura Permanente

Os conceitos de agricultura permanente começaram a ser expandidos como uma cultura permanente, envolvendo fatores sociais, econômicos e sanitários para desenvolver uma verdadeira disciplina holística de organização de sistemas.(Soares 1998, p.5)

As definições mais contemporâneas referem-se a assentamentos humanos sustentáveis (MORROW, 1993, p. 9)

Em linhas gerais, a Permacultura é um sistema de design ecológico, que une conhecimentos tradicionais (tecnologias desenvolvidas durante milênios, aplicadas em sistemas que se mantiveram estáveis e produtivos ao longo de inúmeras gerações) à ciência moderna, para a criação de ambientes humanos sustentáveis podendo ser aplicada em áreas urbanas e rurais. Ela apresenta soluções práticas e sustentáveis para a organização de diferentes espaços.

A permacultura é a elaboração, a implantação e a manutenção de ecossistemas produtivos que mantenham a diversidade, a resiliência e a estabildiade dos ecossistemas naturais, promovendo energia, moradia e alimentação humana de forma harmoniosa com o ambiente (Mollison et al. 1999 apud Jacintho 2007).

Holmgren (2007), através da flor da permacultura, ilustra os sete campos necessários para um planejamento sustentável ao longo de gerações:

Segundo Jacinto (2007, p.37), o termo surgido na Austrália se difundiu pela América do norte e Europa, chegando a América Latina e ao Brasil em meados dos anos 80.

Hoje, existem institutos de Permacultura em todos os continentes, em mais de cem nações. Diversos países, como o Brasil, “vêm adotando a Permacultura como metodologia agrícola e, até mesmo, escolas de todos os níveis estão incluindo a Permacultura no seu currículo básico”. (SOARES, 1998. p. 5)

Bill Mollison visita o Brasil em 1992 e ministra o 1º Curso de Design em Permacultura (PDC), formando assim, os primeiros permacultores³ brasileiros que tiveram a missão de divulgar o método e criar os Institutos de Permacultura no Brasil. (PERMACOLETIVO, 2009).

Atualmente, são 14 institutos localizados nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Amazonas, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Bahia, que atuam no território brasileiro em diferentes escalas. (PERMACULTURA, 2009).

Estas organizações trabalham, através de ações conjuntas com a comunidade local e esferas governamentais, para fomentar o desenvolvimento de soluções práticas para a sociedade brasileira tanto em áreas urbanas quanto em áreas rurais.

A atuação de organizações, como o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), DATER/SAF (Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural da Secretaria de Agricultura Familiar) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, utilizando métodos da Permacultura, promove práticas mais sustentáveis de manejo dos recursos naturais e dos impactos da presença humana.

___________________________________________________________________________ ³ Permacultor ou Permacultora é a pessoa que obteve o Diploma de Desenho em Permacultura, após ter o Certificado do PDC (Permaculture Design Course) e um mínimo de 2 anos adicionais de estudos e trabalhos práticos. Ambos, certificado e diploma, são concedidos por organizações autorizadas para tanto e reconhecidas internacionalmente pelo Permaculture Institute.

- PRINCIPIOS ÉTICOS E DE DESING

Os conceitos da Permacultura são desenvolvidos a partir de uma ética e de princípios específicos, que são os pilares para qualquer planejamento permacultural. Segundo Morrow (1993, p.14), a ética e os princípios da Permacultura “estabelecem os padrões de conduta correta para seus praticantes” (…) “são valores morais amplos ou códigos de comportamento”.

Para realizar a Permacultura é necessário adotar uma ética específica de sustentabilidade que exija um repensar dos hábitos de consumo, dos valores e aceitar o imperativo de viver de forma integrada ao meio ambiente em um sistema complexo de relações. (Soares, 1998, p.4)

A ética permacultural está fundamentada em três componentes básicos. O primeiro componente é o cuidado com a terra onde há o intuito de se preservar todos os seres vivos e “toda a complexidade de relações entre organismos vivos e minerais existentes na terra”. (SOARES, 1998, p. 5).

O segundo está relacionado com o cuidado com as pessoas. De acordo com Mollison (1991), esse componente é fundamental, pois os seres humanos, apesar de serem uma pequena parte de todos os sistemas vivos, realizam ações bastante impactantes. Por isso, a qualidade da vida humana é um fator essencial no desenvolvimento de estratégias de desenvolvimento, pois “se pudermos garantir o acesso aos recursos básicos necessários à existência, reduziremos a necessidade de consumir recursos não-renováveis”. (SOARES, 1998, p.5).

E por fim, a redistribuição do tempo, dinheiro e energia excedentes. Segundo Mollison (1991), este terceiro componente significa que depois de tratar das necessidades básicas e desenhados os sistemas com o melhor das nossas habilidades, podemos estender nossa influência e energias em ajudar os outros a alcançar este enfoque com a “criação de métodos de distribuição equitativos, garantindo o acesso aos recursos a todos que deles necessitam, sem a intervenção de sistemas desiguais de comércio ou acumulação de riqueza” (SOARES, 1998, p.6).

Os sistemas da Permacultura também estão fundamentados em uma ética básica da vida, que de acordo com Miralles e Romero (2001), está associada à deep Ecology4 (Ecologia Profunda).

Além da ética, a Permacultura se baseia em alguns princípios que são essenciais para um bom planejamento e que são provenientes das diversas áreas do conhecimento como a Ecologia, Arquitetura, Geografia, Biologia, Agronomia, Ciências Sociais e Economia. Em relação ao caráter multidisciplinar dos princípios da Permacultura

A base científica para os princípios de design em Permacultura se situa geralmente no âmbito da ciência moderna da ecologia, e mais particularmente, dentro de um ramo da ecologia chamado de “ecologia dos sistemas”. Outras disciplinas intelectuais, mais particularmente a geografia da paisagem e a etno-biologias, têm contribuído com conceitos que vêm sendo adaptados aos princípios de design.(Holmgren 2007, p.9)

Os princípios da Permacultura são inerentes a qualquer planejamento permacultural. Segundo Mollison (1998, p.5):

Para se elaborar um bom design permacultural é preciso seguir dois passos básicos. O primeiro é de que as leis e os princípios podem ser adaptados a qualquer condição climática e cultural e a segunda está mais estreitamente associada com as práticas técnicas, que mudam de acordo com o clima e com a cultura.

4.1 - Quadro síntese dos princípios da Permacultura

1

Observe e interaja: o bom design depende de uma relação harmônica entre a natureza e as pessoas, na qual a observação cuidadosa e interação atenta proporcionam a inspiração do design.

2

Capte e armazene energia: capturar fluxos locais de formas renováveis e não-renováveis de energia.

3

Obtenha rendimento: qualquer sistema deve ser planejado para que proporcione auto-suficiência em todos os níveis (incluindo nos mesmos), utilizando energia capturada e armazenada eficientemente para manter o próprio sistema e capturar mais energia

4

Pratique a auto-regulação e aceite feed back: com um melhor entendimento de como atuam na natureza os feed backs positivos e negativos, podemos desenhar sistemas que são mais auto- reguláveis, portanto reduzindo o trabalho despendido em ações corretivas desagradáveis.

5

Use e valorize os serviços e recursos renováveis: o design da permacultura deve fazer o melhor uso possível de serviços naturais que não envolvam consumo para minimizar nossas demandas consumistas de recurso.

6

Não reproduza desperdícios: reconhecer a reutilização criativa dos desperdícios como a verdadeira essência de uma vida com mínimo impacto na terra.

7

Design partindo de padrões para chegar a detalhes: o reconhecimento de padrões é o resultado da aplicação do primeiro principio: observe e interaja, sendo necessariamente o precursor do processo de design.

8

Integrar ao invés de segregar: a permacultura pode ser vista como parte de uma longa tradição de conceitos que enfatizam os inter-relacionamentos mutualistas e simbióticos em relação aos demais que são competitivos e predatórios.

9

Use soluções pequenas e lentas: os sistemas devem ser projetados para executar funções na menor escala que seja prática e eficiente no uso de energia para aquela função. A escala e a capacidade humana devem ser a unidade de medida para uma sociedade sustentável democrática e humana.

10

Use e valorize a diversidade: a diversidade necessita ser vista como o resultado do equilíbrio e da tensão existente na natureza entre variedade e possibilidade de um lado, e de produtividade e força do outro.

11

Use as bordas e valorize os elementos marginais: o valor e a contribuição das bordas e os aspectos marginais e invisíveis de qualquer sistema devem apenas ser reconhecidos e preservados, mas que a ampliação desses aspectos pode aumentar a estabilidade e produtividade do sistema.

12

Use a criatividade e responda as mudanças: realizar o design levando em conta as mudanças de uma forma deliberada e cooperativa, e responder criativamente ou adaptar o design as mudanças de larga escala do sistema que escapam ao nosso controle e influência.

Fonte: Holmgren (2007)

MÉTODOS PARA O PLANEJAMENTO NA ERMACULTURA

O design está baseado em um conjunto de técnicas, ferramentas e diretivas coerentes com a ética e filosofia da Permacultura. Conforme Soares (1998, p.7), o termo design nesse contexto “não é usado somente como desenho, mas também como planejamento, consciente, considerando todas as influências e os inter-relacionamentos que ocorrem entre os elementos de um sistema vivo”. Segundo Mollison (1991, pg.9), o planejamento da Permacultura envolve:

- Componentes do local: água, terra, paisagem, clima e plantas;

- Componentes sociais: apoio legal, pessoas, cultura, comércio e finanças;

- Componentes energéticos: tecnologias, conexões, estruturas e fontes;

- Componentes abstratos: tempo, dados e ética

Através do zoneamento, do sistema setorial e de uma análise cuidadosa de energia e dos ciclos de nutrientes dentro do sistema, pode – se alcançar um desempenho máximo do projeto.

A partir da observação e do mapeamento da propriedade, organiza – se um diagrama de setores baseados na área do projeto. O planejamento por setores trata exclusivamente das energias não controláveis, como o sol, luz, vento, chuva, fogo, pluviosidade.

Após a observação cuidadosa desses efeitos, realizamos um planejamento para direcionar ou bloquear essas energias, de acordo com as nossas necessidades. Esse planejamento é feito por setores, onde o sítio é o centro do sistema e um círculo representa os 360 graus de possível influência externa. Assim, marcamos os setores de acordo com as informações que coletamos: setor de luz solar no inverno e no verão, setor dos ventos, setor de perigo de incêndio, e assim por diante. Esses setores servirão, mais tarde, para definir o posicionamento de quebra-ventos, a posição da casa e dos abrigos dos animais, entre muitos outros elementos. (Soares 2008, p.8)

O planejamento por setores é complementado pelo planejamento por zonas.

O planejamento por zonas pretende diminuir a perda energética e evitar a produção massiva de resíduos. A estratégia do zoneamento é dispor os elementos de acordo com a intensidade e freqüência do manejo, em outras palavras, os elementos que dependem de cuidados diários ficarão mais próximos a casa.

Em permacultura, as zonas são numeradas de 0 a 5 e podem ser pensadas como uma serie de anéis concêntricos movendo-se para fora do ponto central, onde a atividade humana e a necessidade de atenção esta mais concentrada, até o ponto onde não há nenhuma necessidade de intervenção. (Legan 2008, p.6)

Um projeto de Permacultura por zoneamento refere se a um método que posiciona os diversos elementos e empreendimentos no sitio, para alcançar máximo beneficio com mínimo trabalho, reciclagem de recursos, alta produtividade e baixa manutenção.

Zona 0

Casa, o centro do sistema

Zona 1

É área mais próxima da casa, que será visitada diariamente: a horta, as ervas culinárias, alguns animais de pequeno porte e árvores frutíferas de uso freqüente (ex. limão). Também é onde concentraremos a armazenagem de ferramentas e de alimentos, para utilização a longo prazo.

Zona 2

Um pouco mais distante da casa, a Zona 2 envolve os elementos que necessitam de manejo freqüente sem a intensidade da Zona 1: Algumas frutíferas de médio porte, galinhas e tanques pequenos de aqüicultura poderão fazer parte dessa Zona, bem como outros animais menores (patos, gansos, pombos, coelhos, codornas etc.) Essa área oferece proteção a zona 1.

Zona 3

Já mais distante da casa, pode se incluir as culturas com fins comerciais que ocupam mais espaço e não necessitam de manejo diário.

Também pode – se incluir a criação de florestas de alimentos, animais de médio e grande portes com rodízio de pastagens; produção comercial de frutos e castanhas, entre outros elementos essenciais à diversidade daprodução.

Zona 4

Visitada raramente, nela poderemos incluir a produção de madeiras valiosas, açudes maiores e a produção de espécies silvestres comerciais. Em regiões de floresta, o extrativismo sustentável e o manejo florestal tambémpoderão fazer parte desta Zona, bem como a recriação de florestas de alimentos em regiões que foram desmatadas.

Zona 5

É utilizada para aprender ou para uma coleta ocasional de sementes. É onde não se interfere, permitindo, assim, que exista o desenvolvimento natural da floresta. Sem esta Zona fica se sem referência para a compreensão dos processos que tentamos incluir nas outras zonas.

Fonte: Soares (1998)

O Design do Sitio Curupira, representado pela figura 3, ilustra o desenvolvimento das atividades a partir da casa, a Zona 0. O sitio está localizado na cidade de Santo Amaro da Imperatriz, em Santa Catarina.

A partir dessa zona são identificadas as atividades que serão desenvolvidas, os recursos disponíveis, as relações entre os elementos do sistema e os fluxos (o que é resíduo em um lugar torna-se insumo em outro, ou seja, múltiplas funções de um elemento).

A casa é foi toda construída com madeira de reflorestamento (eucalipto), inclusive aberturas e forro. Toda água que cai no telhado segue direto para o açude. A água consumida é de uma nascente, as águas cinzas vão para o círculo de bananeiras e as águas negras seguem para a fossa/sumidouro (SITIO CURUPIRA, 2009).

Na Zona 1 está o cultivo de hortaliças, vinhas, frutíferas de pequeno porte, círculo de bananeiras, composteira, minhocário, viveiro de mudas, cultivo de cogumelos e biodigestor.

Este espaço é de máxima dedicação (no que se refere à aplicação de energias e expectativas pessoais) e de garantia da maximização da qualidade de vida, para a estruturação dos espaços integrais (zonas 2,3,4 e 5), para o desenvolvimento familiar. (SITIO CURUPIRA, 2009).

O planejamento Permacultural se mostra uma importante ferramenta na produção sustentável de diferentes espaços. Através da observação dos padrões naturais e da interação dos diversos elementos dentro do sistema pode se alcançar vários benefícios ambientais e sociais como:

a) Recuperação de áreas naturais degradadas;

b) Promoção da biodiversidade local;

c) Produção de alimentos em sistemas agroflorestais (segurança alimentar);

d) Utilização eficiente dos recursos energéticos;

e) Geração mínima de resíduos sólidos (reaproveitamento dentro do próprio sistema);

f) Redução no custo das construções devido à utilização racional e criativa de material local;

g) Geração de excedente para comercialização ou regime de troca (economia solidária);

h) Resgate da auto-estima do trabalhador ou trabalhadora do campo (no caso de propriedade rural) e valorização de sua condição;

i) Equilíbrio das relações humanas com a natureza (mudança de percepção e paradigma).

6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

O paradigma da modernidade se mostrou ineficiente para responder os problemas ambientais e sociais que assolam boa parte da população mundial. As suas próprias bases de produção e de consumo são ineficazespara se obter de um convívio equilibrado entre os homens e a natureza.

Estamos frente a uma crise generalizada e global não somente econômica, ecológica ou social; é uma crise do próprio sentido da vida e de nossa sobrevivência como espécie, é uma crise de nossa forma de pensar e agir no mundo. Sobreviveremos a ela na medida em que formos capazes de construir uma nova racionalidade ambiental que possa responder aos desafios presentes (Medina 2008, p.24).

A Permacultura é uma importante estratégia para a mudança de paradigma tão necessária na atualidade, pois suas bases estão fundamentadas nas relações da natureza, que são processos sistêmicos e holísticos e que respeitam os ciclos e as relações entre os ecossistemas. Os seus métodos e princípios podem auxiliar na criação de espaços mais sustentáveis e harmoniosos com as leis naturais.

7 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAPTISTA, Fernando Mathias. Almanaque Brasil Socioambiental. Instituto Socioambiental. São Paulo, 2007.

BOFF, Leonardo. Ecologia. Grito da Terra, Grito dos Pobres. Rio de Janeiro: sextante, 2004.

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 6. Ed. São Paulo: Cultrix, 2001. 256 p.

ECOVIDA  INSTITUTO ECOVIDA SÃO MIGUEL. Disponível em acessado em 21 ago. 2009.

HOLMGREM. Disponível em acessado em 15 set.2009.

HOLMGREN, David. Os Fundamentos da Permacultura. Versão resumida em português. Santo Antônio do Pinhal, SP: Ecossistemas, 2007.

IPEC  INSTITUTO DE PERMACULTURA E ECOVILAS DO CERRADO. Disponível em acessado em 23 ago. 2009.

JACINTHO, Cláudio Rocha dos Santos. A Permacultura e o Paradigma Ecológico na Extensão Rural: Uma experiência no Assentamento Colônia  I Padre Bernardo  Goiás. 139 p. (UnB  CDS, Mestre, 2007).

LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Tradução de Lucia Mathilde Endlich Orth – Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

LEGAN, Lucia. Soluções sustentáveis  Permacultura Urbana. Pirenópolis, GO: Mais Calango Editora. Pirenópolis, GO: Ecocentro IPEC  Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, 2008.

LEONARD, Annie. The Story of Stuff. Documentário. 20 min. EUA: 2007.

LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. “Crise ambiental, educação e cidadania: os desafios da sustentabilidade emancipatória”. In: LAYRARGUES, P. P.; Castro, R. S; LOUREIRO, C. F. B. (orgs.) Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania, São Paulo: Cortez, 2002.

MEDINA, Naná Mininni. Educação Ambiental: uma metodologia participativa de formação. 4. Ed.  Petrópolis. RJ: Vozes, 2008.

MIRALLES, Jordi; ROMERO Jordi. Perspectiva ambiental 21. Fundació TERRA, Barcelona, 2001.

MOLLISON, Bill. Introdução à Permacultura. National Libray of Austrália. 1991.

MORROW, Rosemary. Permacultura Passo a Passo. Pirenópolis, GO: Ecocentro IPEC, 1993.

PERMACOLETIVOS. Disponível em acessado em 21 set.2009.

PERMACULTURA. Disponível em acessado em 21 set. 2009.

ROMERO, Jordi. El rebost de la ciutat: Manual de Permacultura Urbana. Fundació TERRA, Barcelona, 2002.

SETE LOMBAS. ESTAÇÃO DE PERMACULTURA. Disponível em acessado em 21 set. 2009.

SITIOCURUPIRA. Disponível em < www.sitiocurupira.wordpress.com/permacultura/> acessado em 15 set. 2009.

SOARES, André Luis Jaeger. Conceitos básicos sobre Permacultura. Brasília: MA/SDR/PNFC, 1998.

SOUZA, A. S. A obsolescência planejada: Uma reflexão frente aos problemas socioambientais do planeta. In: XVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção: A energia que move a produção: um diálogo sobre integração, projeto e sustentabilidade, Foz do Iguaçu, PR, Brasil, 2007.

TEIXEIRA, W; TOLEDO, M. C. M. de; FAIRCHILD, T. R.; TAIOLI, F. (Orgs.) Decifrando a Terra.São Paulo: Oficina de Textos, 2000.

Leia mais em: http://www.webartigos.com/artigos/permacultura-uma-estrategia-alternativa-para-a-sustentabilidade/30946/#ixzz1vnppyRq6

…………………

http://www.permaculture.org.au/

http://permacultureglobal.com/

…………………..

Fundamentos_PC_Brasil_eBook

…………………

pc_flower_poster_pt

…………………

pc_principles_poster_pt