Helena Cardoso

em :

http://www.unicepe.pt/quartas_5/q_241.html

Helena Cardoso é uma estilista radicada no Porto, mas a sua obra tem uma escala muito maior. Extraordinária artista, extraordinária criadora, extraordinária mulher.

Porque se não é garantido que a arte liberta, embora seja muito provável que o faça (os exemplos de artistas que sucumbiram não chegam para me fazer duvidar… eu sei lá o que teria sido deles sem a arte…), a arte desta mulher tem realmente libertado muitas, muitas mulheres de vidas dispersas pelo meio de rebanhos nas encostas das Serras: Freita, Lvão, Montemuro, e outras.

Com elas reabilitou os antigos teares, por elas salvou alguns teares de terem o destino de tantos, tantos outros: a fogueira, por elas e com elas reabilitou e deu dignidade ao trabalho feminino.

Com peças por elas executadas (tecido, malha), criou colecções com a sua marca e estilo, em fibras naturais, lã, linho, algodão. Estas mulheres deixaram o fundo da casa e o meio dos rebanhos e voltaram a sentar-se aos teares; algumas aprenderam, outras reaprenderam, aprenderam também (não reaprenderam, porque nunca o tinham sabido) a dar um valor monetário ao seu trabalho, facto que muito as chocou, pois para elas, trabalho era guardar o rebanho, aprenderam a dar um valor humano e dignidade a si mesmas.

O processo de colaboração é interessantíssimo: Helena iniciava o tecido, dava o mote e deixava (estimulava) que elas o desenvolvessem segundo a sua intuição. Segundo ela, não há como estas mulheres que todos os dias convivem com as cores das flores, das ervas e da terra, para terem um conhecimento sábio e intuitivo do uso da cor.

Ao fim de muito tempo aprenderam, ousaram vestir as roupas feitas com os tecidos que elas próprias confeccionavam, pois de início, para elas, essas peças destinavam-se exclusivamente às “senhoras da cidade”. Um dia algumas delas passaram os modelos, a grande revolução. E gostaram.

Aqui se pode ler a história das “Capuchinhas”:

http://www.soroptimistportugal.org/files/BiografiaCapuchinhas.pdf

Algumas continuam a trabalhar. Outras, por falta de técnico que as apoie (a crise também chegou à montanha e o país é cego e surdo para o que é essencial), algumas não puderam continuar, voltaram aos rebanhos. Outras persistem, aquelas que a Helena Cardoso, que não conduz, consegue, nas suas viagens de camioneta, continuar a apoiar.

Um dia, num dos seus percursos de camioneta pela serra, Helena Cardoso encontrou um pastor vestindo uma peça sua. Um pastor vestindo uma peça que não sabia ser de estilista, coisa que não tinha para ele qualquer tipo de significado. E mais não conto, para que possam imaginar o que sentiu Helena, o que aconteceu.

É de outra história que falo hoje, mas não saberia fazê-lo sem esta introdução.

No trabalho da estilista Helena Cardoso há muito se adivinhava o que agora veio a acontecer: a criação libertou-se do vestuário e as peças transformaram-se em aguarela, em escultura, o vestuário transfigurou-se e saltou para molduras, paredes, assim criando uma nova expressão.

Os materiais continuam a ser basicamente alguns dos que a estilista usa: linho, lã, seda, líquenes (na sua ligação à natureza sempre a usou profusamente nas suas peças e as flores das serras saltaram das encostas dos montes para os tecidos por si criados). Nestas peças a lã, o linho e a seda convivem com gaze, acrílico, agrafos, botões.

Quando me deparei com as primeiras peças, assim que entrei na livraria (o espaço que recebe a sua obra desdobra-se em livraria, galeria, bar, restaurante, esplanada e as peças dividem-se pela livraria e galeria), a impressão que tive foi de estar perante um quadro em que o tecido coabitava com o mosaico. Aproximando-me, verifiquei que os “mosaicos” eram, afinal, bocadinhos de burel branco.

As peças apresentam uma imensa versatilidade quer na forma, quer nas cores, quer ainda na conjugação dos materiais. Tocou-me muito especialmente uma das peças totalmente construída sobre a cor branca, onde vi uma espécie de escrita e de onde também não está ausente a presença das vestes ou das asas esvoaçantes de um anjo ou pássaro, ou de um anjo pássaro.

Eu tinha acabado de visitar em Serralves a exposição de Lourdes de Castro e de Manuel Zimbro, e tinha ainda presente uma peça de Lourdes de Castro que embora não tivesse encontrado lá, me acompanhou durante toda a exposição: um anjo de sombra, e tinha agora aqui um anjo de luz de algodão, vira em Serralves pontas de luz condensadas num objecto de vidro que olhei como um acelerador de partículas, via agora aqui os “mesmos” fios de cores espraiando-se pelos tecidos do tear de Helena Cardoso, tinha visto as sombras bordadas à mão nos lençóis de Lourdes de Castro e tinha entrado numa loja tradicional do Porto onde vira amêndoas que são verdadeiros bordados, minuciosas peças únicas criadas à mão, e via agora o bordado criar pintura, aguarela, e tudo isto me transportou a uma mulher sobre quem escrevi recentemente, a médica Adelaide Cabete, e a sua contribuição, juntamente com outras ilustríssimas do seu tempo, para o bordado da primeira bandeira da República. As mulheres têm em si e manifestam, esta divina sabedoria do bordado do mundo (que os homens, para bem de todos e talvez para salvação do mundo, começam agora a descobrir) e qualquer pele lhes serve, qualquer material as contenta: corpo, açúcar, lã, seda, sombra, anjo, flor ou luz. Não é possível comparar as obras de diferentes criadores, mas é possível sentir comoções parecidas perante o genuíno e irreprimível impulso de criar.

Exposição: “pontear a vida, Helena Cardoso

 

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http://www.circulodeculturaportuguesa.com/projectos/vestircultura/evento/

 

Evento

Breve apresentação
Respeitando as expressões culturais mais autênticas, o Circulo de Cultura Portuguesa (CCP), incentiva a atitude inovadora como agente do dinamismo cultural, promotora da formação de novos públicos. Acredita o CCP que adaptando saberes tradicionais às novas necessidades da sociedade contemporânea se possam criar actividades dissuasoras da desertificação dos territórios geográficos e culturais e divulgadoras da riqueza de um património que é urgente preservar.

O trabalho da estilista Helena Cardoso e dos grupos de mulheres artesãs 
O trabalho de grupos de mulheres artesãs que se dedicam à tecelagem do linho, continuando o labor ancestral dos bordados nas suas diversas especificidades regionais e dando novos usos ao burel das capas dos pastores é, infelizmente, pouco conhecido.
Helena Cardoso é uma estilista que dedicou o seu talento a acompanhar e apoiar a formação desses grupos de mulheres. Da Serra de Montemuro, em Arões, em Viana do Castelo formaram-se cooperativas de mulheres que foram buscar os teares já postos de lado e reaprenderam a arte de tecer e bordar. Adaptaram os têxteis e as artes da agulha ao design contemporâneo e aprenderam as técnicas de corte e confecção para a criação de peças actuais. Os modelos de Helena Cardoso e o trabalho das artesãs surpreendem pela beleza, pela qualidade e pela modernidade.

Notas breves sobre o percurso deste trabalho
Insuficientemente conhecido, este trabalho não é, no entanto, um segredo escondido. As Festas de Lisboa de 1996 acolheram a passagem de modelos Memórias realizada no Palácio Pancas Palha. O Pavilhão de Portugal na EXPO98 apresentou o desfile Nas Margens. Em 1998, a Presidência da República escolheu o desfile destes modelos para, na Fundação de Serralves e perante a Rainha de Espanha e as esposas dos Presidentes da República presentes na Cimeira Ibero-Americana, demonstrar a excelência e a vitalidade da cultura tradicional. Mas diversas têm sido as outras ocasiões em que o trabalho de Helena Cardoso foi apresentado no país e no estrangeiro.
Organização do desfile

Guimarães, Cidade de Cultura Propôs o Círculo de Cultura Portuguesa à Câmara Municipal de Guimarães a realização de uma passagem de modelos no Centro Cultural de Vila Flor. Para esta escolha concorreu a beleza de uma cidade marcada pelo notável património arquitectónico, afirmada pela excelência da recuperação da zona histórica de Guimarães, tão distinguida e apreciada. Sem esquecer o dinamismo cultural e o contributo da atenção à qualidade revelada na cuidada programação do Centro Cultural de Vila Flor. Esta atmosfera tornou o território urbano e cultural privilegiado para a realização deste evento.

Criação de novos modelos, alguns a partir dos Bordados de Guimarães 
A exibição da colecção do PPART e de novos modelos criados foi acrescida das peças concebidas com as bordadeiras de Guimarães.

Produção assegurada pelo CCP 
A produção executiva do desfile foi assegurada pelo CCP. Esta iniciativa beneficiou ainda do apoio inestimável do Ministério da Cultura e do Museu de Alberto Sampaio.

Esta iniciativa beneficiou ainda do apoio inestimável do Ministério da Cultura, da Câmara Municipal de Guimarães e do Museu de Alberto Sampaio.

Outros apontamentos sobre o desfile e sobre a colecção
O desfile VestirCultura pretendeu mostrar os materiais e o vestuário executados por grupos de mulheres artesãs, que assistiram ao evento.
Pretendeu afastar-se qualquer concepção “folclórica” de representação, sem, no entanto, cair na frieza e distância de um desfile de alta-costura. Seguindo o exemplo dos desfiles anteriores, criou-se um espectáculo vivo.
A mostra foi assegurada por modelos profissionais que dignificaram, com a sua experiência, a qualidade do vestuário divulgado.
Uma banda sonora original foi construída, pretendendo, como no vestuário, juntar o passado e o presente. Recolhas feitas por Giacometti e músicas do cancioneiro tradicional português ligaram-se ao jazz e à música contemporânea, acompanhando os diferentes modelos e criando o ambiente das diversas épocas do ano.

Para garantir que a divulgação desta colecção não se confinou ao desfile, as peças criadas foram entregues à guarda do Museu de Alberto Sampaio/Instituto Português de Museus, do Ministério da Cultura, que tratará da sua exposição.

 

A Estilista

   

 

Helena Cardoso

O trabalho aqui apresentado é um lugar de resistência.
Resistência de saberes tradicionais de um quotidiano ido, mas que teimam em não morrer. Persistem em sobreviver na sua beleza, poesia, e arte, cruzando-se com a modernidade, adequando-se aos gestos e às necessidades do nosso tempo.

 

http://takeawayporto.blogspot.pt/2012/03/helena-cardoso.html

 

http://www.unicepe.pt/quartas_5/q_241.html

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