Na Islândia, a retoma ainda não apagou a raiva
lerem: http://www.ionline.pt/dinheiro/na-islandia-retoma-ainda-nao-apagou-raiva
O livro que os islandeses mais leram desde 2010, que está em todas as casas ao lado das sagas nórdicas e do Nobel Halldor Laxness, é um relatório de auditoria. Nele está narrado o fio de acontecimentos que levou um país isolado, com menos pessoas do que o distrito de Viseu e dependente de negócios como a pesca, a fabricar a maior bolha bancária da História. Os islandeses leram com a avidez que faz deles os maiores leitores de literatura e jornais em todo o mundo. Em Reiquiavique, a capital, com pouco mais de 200 mil pessoas, encontrei pelo menos três livrarias de topo. O principal jornal diário, o “Morgunbladid”, tira em média 40 mil cópias – um jornal comparável em Portugal precisaria de tirar 1,4 milhões de exemplares (quase quatro vezes a tiragem diária conjunta de todos os diários generalistas portugueses) para ter o mesmo nível de vendas.
O resultado da auditoria pública à gestão bancária e à conduta política foi publicado em oito volumes, incluindo um com o resumo das conclusões, em linguagem para leigos. Foi colocado nas livrarias com o preço simbólico de 100 coroas (60 cêntimos). “É como ler ficção, tem uma grande trama”, diz sem qualquer ironia Gudrun Ingvarsdóttir, uma arquitecta de 39 anos. O impacto da auditoria na opinião pública, combinado com o da crise, foi devastador. Nos livros está a concentração de interesses entre os banqueiros que arruinaram o país e o poder político, a gestão criminosa do risco, a dimensão da loucura de uma era em que bilionários instantâneos pagavam milhões a Elton John para cantar em festas. “Depois de lermos começámos a perguntar como é possível dizer que a Islândia é um país bem classificado nos rankings de corrupção – nós vivemos no país mais corrupto da Europa”, acusa Gudrun.
Passados três anos e meio do colapso da bolha financeira, a Islândia parece ser um caso de sucesso e um motivo de inspiração para a Europa em crise. Depois do afundamento de 10% entre 2008 e 2010, a economia cresceu 2,5% em 2011 e deverá expandir outro tanto este ano, puxada pelo turismo e pelas exportações. A agência de notação financeira Fitch tirou a dívida pública islandesa do nível “lixo” – onde está a portuguesa – e o país, que já voltou aos mercados de dívida, anunciou em Março o pagamento adiantado de 340 milhões de euros ao FMI. A taxa de desemprego caiu para 7%, menos de metade da registada em Portugal. O programa do FMI acabou em Agosto de 2011 e os técnicos falam em tom cândido das “lições” que aprenderam na Islândia. O governo escolheu um rumo pouco ortodoxo. Ao contrário do que fizeram os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido ou da Irlanda, a Islândia deixou cair os bancos e os credores externos.
Quem chega a Reiquiavique no gelado mês de Fevereiro vê escassos sinais do histórico “kreppa”, como os islandeses chamam ao colapso de 2008. Não fossem as omnipresentes t-shirts à venda com o slogan “We don’t have cash, but we have ash” – numa referência à cinza vulcânica que em 2010 paralisou o tráfego aéreo na Europa – e não haveria qualquer sinal da crise à superfície. Os cafés, restaurantes e bares da moda situados na Avenida Laugavegur estão recheados de nativos e de turistas atraídos pela desvalorização de 50% da coroa. Não há pessoas a pedir na rua. No porto brilha o gigante Harpa, a versão islandesa da Casa da Música, símbolo das extravagâncias do passado terminado com dinheiro público, já com meio milhão de visitantes desde a inauguração em Maio de 2011.
Mas, sob a superfície, há uma grande dose de ressentimento e de desconfiança na sociedade islandesa. “Percebo que no contexto europeu queiram tornar este país um símbolo de esperança na democracia, mas garanto que não é o que sentem as pessoas que vivem aqui” desabafa Anna Sorensen, que edita a revista em inglês “The Grapevine”. Uma sondagem recente, publicada pela Reuters, parece confirmar o sentimento: apesar da recuperação económica, o parlamento merece o voto de confiança de apenas 10% dos inquiridos. Em Reiquiavique, só os banqueiros têm pior reputação que os políticos.
O julgamento do ex-primeiro-ministro, Geir Haarde, é visto pelo governo actual como um primeiro passo necessário para a reconciliação. A Islândia foi o único país a julgar um responsável político por negligência na crise financeira. A sentença, conhecida esta semana, foi interpretada por analistas citados na imprensa internacional como uma solução de apaziguamento: Haarde, 61 anos, foi absolvido das acusações mais graves (que dariam um máximo de dois anos de prisão), mas condenado por não ter dedicado mais atenção aos sinais óbvios nos meses anteriores à crise. A justiça tem mais acusações formalizadas contra alguns banqueiros.
O PODER DA MOEDA Mesmo que os processos tenham alguma influência a prazo, a chave para a reconciliação está na melhoria das condições económicas. Mas não está o país a crescer pelo segundo ano consecutivo? O que se passa sob a superfície sofisticada de Reiquiavique? “O que está a ferver sob a superfície é a dificuldade das famílias, que estão sobrecarregadas com os empréstimos para habitação e com a redução entre 20% a 30% no poder de compra”, responde Karl Blondal, editor do “Morgunbladid”.
O “fim da crise” a um nível mais institucional não significa o fim da crise para as pessoas. A desvalorização de 50% da coroa que ajuda as exportações (e está a motivar uma onda de novos negócios – ver segundo texto) é a mesma que, numa ilha que importa muito do que consome, faz disparar a inflação para mais de 20% logo em 2009. A taxa tem caído, num sinal de progresso, mas continua relativamente alta (6,5%), tendo em conta o valor já acumulado. A erosão do poder de compra já seria problema suficiente, mas há um impacto adicional e devastador: 75% dos empréstimos para compra de casa estão indexados à taxa de inflação e os restantes 25% ligados a cabazes de moedas estrangeiras. No primeiro caso, a prestação da casa inchou muito; no segundo, explodiu para o dobro ou o triplo.
A arquitecta Gudrun, 39 anos, casada e com dois filhos, dá o seu exemplo. Em Dezembro de 2005 comprou com o marido uma casa de dois quartos por 30 milhões de coroas (400 mil euros na altura e 180 mil euros ao valor actual da coroa). Gudrun, sócia de um gabinete de arquitectura, e o marido, consultor de negócios, eram candidatos modelo para um empréstimo. Conseguiram poupar e deram 40% do valor da casa como entrada (os bancos emprestavam mais de 100% do valor da casa), pedindo os restantes 18 milhões de coroas a uma taxa de 4,5% indexada à inflação. Mas com o salto súbito na inflação, a prestação de 97 mil coroas (583 euros) cresceu 40% para 137 mil por mês (822 euros) – e os 18 milhões do empréstimo passaram, de repente, a ser cerca de 26 milhões, comendo praticamente todo o capital investido.
No dia em que me encontrei com Gudrun – que saiu do ateliê dos grandes projectos da bolha e trabalha agora numa empresa que constrói e arrenda casas a baixo custo –, a notícia dominante era a decisão do Supremo Tribunal que ordenara a revisão em baixa dos juros nos contratos mais arriscados, feitos em moeda estrangeira. “É uma má lição que as autoridades dão, porque recompensam os que mais arriscaram à custa dos mais prudentes”, acusa Gudrun. Thórolfur Matthíasson, professor na Faculdade de Economia da Universidade da Islândia, percebe o problema, mas considera-o inevitável. “Há uma coisa que não se pode esperar numa crise financeira: justiça transversal.” Os mais prudentes pagam sempre a conta.
Matthíasson assistiu a comissão parlamentar de supervisão dos programas de redução da dívida das famílias, elogiados há duas semanas pelo FMI, que recomendou o mesmo rumo a países com dívida privada muito alta e resultante de bolhas de crédito imobiliário (um recado indirecto para Espanha com eco em Portugal). As autoridades começaram por um perdão parcial às pessoas com dívida 110% maior do que o valor da casa, explica. Depois avançaram para moratórias e perdões parciais para quem tinha um empréstimo igual ao valor da casa (obrigando, em contrapartida, as pessoas a venderem todos os activos, excepto a casa e um carro). Ao todo, o Estado já concedeu perdões de dívida e moratórias no valor de 20% do PIB (cerca de 2 mil milhões de euros). “O problema é que as pessoas esperavam muito mais perdões”, lamenta Matthíasson. A dívida de particulares ainda supera em 200% o rendimento disponível (130% em Portugal) e um terço das famílias está em dificuldades para cumprir as prestações.
O ressentimento poderá aumentar à medida que as pessoas se forem apercebendo de uma realidade mais ou menos oculta: apesar de os islandeses terem decidido por duas vezes em referendo não pagar o fundo de garantia de depósitos aos credores estrangeiros, o país acabará por pagar. “Na realidade, nós já estamos a caminho de pagar cerca de 30%”, explica o professor universitário. E as pessoas não sabem disso? “Sim e não”, responde. “O descontentamento era grande. Depois dos referendos, o governo fez passar a ideia de que nunca pagaríamos e o pagamento é uma operação financeira gradual e difícil de seguir.”
Os governos da Holanda e do Reino Unido pagaram o fundo de garantia aos seus cidadãos que abriram contas online no Landsbanki islandês, transformando uma dívida privada de 4 mil milhões de euros em dívida entre países. A expectativa do governo da Islândia é de que a liquidação dos activos do nacionalizado Landsbanki sirva para resolver a dívida. Mas o país enfrenta um risco adicional: o tribunal da EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) abriu um processo à Islândia por discriminação entre depositantes nacionais (que receberam o fundo) e estrangeiros. A União Europeia juntou-se à acusação há duas semanas. Uma condenação poderia levar os governos britânico e holandês a pedirem nos tribunais da Islândia o pagamento de juros e de uma penalização adicional, que pode ir até 10%.
“A decisão dos referendos [que rejeitaram duas propostas de negociação] foram um risco, uma aposta de que ainda não sabemos o resultado”, assume o ministro do Estado Social, Gudbjartur Hannesson. Pelo menos, a Islândia teve a coragem de deixar cair os bancos criminosamente geridos, juntamente com os credores, certo? “Nós não escolhemos, foi uma questão de força maior”, responde o ministro. “Os bancos cresceram até serem dez vezes maiores do que a nossa pequena economia – era impossível resgatá-los”, explica. O “too big to fail” anglo-saxónico, o lema atrás da salvação dos bancos pelos estados dos EUA e Irlanda, deu lugar na Islândia ao “too big to save”.
“Tem de ver de onde vimos.” A trama da saída milagrosa e original da crise ia ficando cada vez mais densa a cada conversa – e mais dissonante da realidade observável. O ministro que concentra saúde, segurança social e a gestão dos programas de redução de dívida – “tudo vem aqui dar, veio ao lugar certo” – era o candidato ideal para perguntar o que explica este fosso. Como é que há tantas queixas e as coisas parecem tão boas? “Tem de olhar para de onde vimos: um estado social nórdico”, responde Gudbjartur. “O nosso ponto de partida antes da crise era bom e o governo focou-se na defesa da rede social, o que foi mais fácil por sermos uma nação pequena”, acrescenta.
O governo – uma aliança exótica entre sociais-democratas e esquerda dura – foi forçado a fazer cortes nos gastos sociais. A opção foi cortar 5% em saúde e 7% em educação, mas estes cortes vieram em cima da dieta imediatamente a seguir à crise – ao todo, para ajudar a acomodar a subida grande com juros da dívida pública, a Islândia eliminou 17% em gastos de saúde (Portugal comprometeu-se a cortar 1000 milhões de euros das despesas de saúde, cerca de 13% do total). Mas mesmo no meio da sangria, o governo conseguiu negociar com o FMI a expansão do subsídio de desemprego de três para quatro anos e o aumento dos apoios sociais para os grupos mais fragilizados. Para compensar, aumentou os impostos para a classe média, os mais ricos, as empresas e os bancos. A taxa de pobreza manteve-se das mais baixas da Europa. E para a classe média, apertada em várias frentes, os fundos de poupanças para a reforma estão a funcionar como almofada de emergência. “São um pé-de-meia facultativo para a reforma, para o qual contribuem o trabalhador e o empregador, que as pessoas estão agora a queimar”, realça o jornalista Karl Blondal.
Os islandeses estão a pagar um preço alto – não há ajustamentos fáceis –, mas a sociedade é mais igualitária e rica do que, por exemplo, a portuguesa. O nível salarial médio para trabalhadores não qualificados é de 1500 euros e o subsídio de desemprego mínimo começa em 1100 euros. “Um país com 300 mil pessoas que pesca 5% do peixe consumido no mundo e está sentado em cima de uma central de energia geotérmica nunca pode estar verdadeiramente mal”, ironiza Andri Snaer Magnasson, escritor e argumentista. “Pelo menos agora, a riqueza que criamos é mais verdadeira”, acrescenta. Os islandeses já se aperceberam disto. Mas levará tempo até que a retoma alivie as marcas deixadas pela crise – marcas no bolso, na confiança e na coesão social.